13/08/2022

LIVRO - Capítulo 5 - A Superfície


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CAPÍTULO 5 - A SUPERFÍCIE


Kaolin, Amana e Endi encaravam Tokku com os olhos arregalados, sem piscar. Os lábios de Amana tremiam, como se ela tentasse falar algo, mas sua voz não saía. Tokku pegou o papel que a garota segurava, o virou e o colocou no centro da mesa. De um lado, havia instruções de como selar os espíritos, e do outro, a seguinte mensagem:

"Taîyra é considerada perigosa e fugiu da Cidadela para caçar espíritos por conta própria. Caso a encontrem, reportar imediatamente ao General. Nos arredores do rio Sanozama foi a última vez que alguém com características semelhantes a da Exploradora foi avistada."

As irmãs não acreditavam no que acabaram de ler.

— Olhem a data, é de três anos atrás. — Tokku apontou para o canto superior direito da folha.

— Ela ainda pode estar viva! — Amana exclamou.

— Não sei Amana, já fazem anos... — Kaolin parecia insegura. — E nem afirmam se era ela ou não.

— Quem mais poderia ser? — Amana tinha um leve sorriso em seu rosto.

— Não está escrito que era ela. — Kaolin insistiu.

— Você não quer que nossa mãe esteja viva? — A caçula questionou.

— Como ousa? — Gritou Kaolin.

— O que Kaolin está tentando dizer, — Tokku interveio. — é para ter cuidado e não criar muitas expectativas.

— Além de não darem certeza se era realmente sua mãe ou não, a última vez que a viram foi há três anos. — Endi tentou ajudar.

Amana percebeu que não adiantaria discutir com eles. Ao mesmo tempo que entendia que os amigos queriam protegê-la, achava ridículo eles não estarem tão felizes quanto ela com a possibilidade de sua mãe estar viva. Compreendendo que não realizaria nada de útil naquele momento, resolveu se retirar.

— Preciso ficar sozinha. — Amana disse indo para seu quarto. — Podem ir ao festival sem mim.

— Amana... — Kaolin a chamou em vão.

Os três não tinham muito interesse no festival depois de tudo o que descobriram e conversaram. Além de acharem perigoso deixar Amana sozinha. Eles estavam no andar mais profundo e vazio da Cidadela naquele momento.

— Ainda acho que vai ser mais suspeito se não formos. — Kaolin disse triste. — Não queremos que descubram que invadimos a sala do General e dos anciãos.

— Olá? — Alguém chamou na entrada da casa.

Mostrando apenas a cabeça que passava pela cortina amarela, Potira sorriu para o grupo.

— Ele me chamou aqui. — A garota disse suavemente.

Lin passou pela cortina, se posicionando na cabeça de Potira.

— Vocês estão bem? — Potira perguntou.

A garota notou as expressões tensas no rosto dos colegas. Quando viu Endi, por um momento tentou lembrar se já o havia visto antes, mas como sempre se esquecia das pessoas com facilidade, acreditou que ele devia ser algum amigo de Tokku.

— Sim! — Kaolin agiu rapidamente. — É que a Amana não está se sentindo muito bem, então ela foi se deitar. Você se importa de ficar de olho nela enquanto vamos rapidinho no festival?

— Você está com fome? — Potira imaginou o que Kaolin realmente queria.

— Temos que cumprimentar algumas pessoas. — Tokku tentou disfarçar.

— Tudo bem, podem ir. — Rindo, Potira foi em direção ao quarto de Amana. — Eu cuido dela.

Lin ainda estava na cabeça da garota. Kaolin e Tokku se levantaram, fazendo gestos para que Endi os seguissem.

— Temos que ser rápidos. — Tokku alertou.

— Não acho que Amana esteja realmente em perigo, e com a Potira na casa, me sinto mais tranquila. — Kaolin desabafou.

— Vamos apenas pegar comida e voltar. — Endi disse olhando para os lados, com medo.

A segunda noite do festival definitivamente não foi tão divertida quanto a primeira. Pelo menos não para o grupo. Já os outros moradores, pareciam festejar em dobro.

Chegando no terceiro andar, enquanto o Capitão era parado para cumprimentar alguém ou puxado para alguma conversa, Kaolin e Endi foram coletando alguns alimentos. Eles se mantiveram unidos o tempo todo, tomando cuidado para não se perderem de vista. Mas diferente do dia anterior, hoje não sentiam que alguém os seguia.

Poucos minutos após chegarem, já estavam de saída. Tokku despistou todos que queriam conversar com ele, quando viu os amigos passando do seu lado, indicando que já era hora de partir.

— Sei que não estamos no clima, mas a festa parece bem mais animada hoje. — Endi notou.

— Na terceira noite fica ainda mais agitado. — Tokku comentou.

— Incrivelmente as pessoas não se cansam, elas só vão ficando mais e mais... festivas? — Kaolin riu.

Saindo do meio da multidão e retornando para os andares inferiores, seguiram rápido e em silêncio. Chegando na casa, Kaolin colocou pratos sobre a mesa e distribuiu os alimentos. Endi e Tokku foram com uma garrafa vazia até o rio buscar água fresca.

Kaolin olhou no quarto da irmã, bem discretamente. Amana estava deitada na cama e Potira sentada ao seu lado. Se afastando da entrada, fingindo não ter olhado lá dentro, chamou as duas:

— Venham comer!

Quando elas saíram pela cortina preta, os rapazes já estavam de volta sentados à mesa com Kaolin. As amigas sentaram juntas, trazendo Lin com elas.

— Sei que não é a mesma coisa que o festival, mas fico feliz de estar aqui com todos vocês! — Potira disse sorrindo.

Escolhendo esquecer dos problemas por um breve momento, os cinco comeram e riram juntos. Conversaram sobre bobeiras e assuntos aleatórios. Se divertiram com Lin e com as histórias de Kaolin. Naquele instante, eles eram apenas garotos e garotas aproveitando uma noite alegre entre amigos.

Sem perceber o tempo passar, acabaram adormecendo juntos no grande tapete roxo. A presença de Potira foi algo que eles não esperavam, mas foi muito bem vinda. Ela trouxe uma leveza que o grupo realmente precisava.

***

Na manhã seguinte, Tokku acreditava ser o primeiro a despertar. "Hoje é o último dia", ele sussurrou encarando o teto. Enquanto olhava para cima sem piscar, Amana passava pela cortina amarela. Notando que o rapaz estava acordado, ela disse:

— Levei Potira para a casa dela. Vou arrumar minhas coisas.

Tokku ficou pensando o que exatamente a garota iria arrumar. Não bagunçaram nada ontem, os pratos já estavam limpos, ninguém derrubou nada... Também não havia aula ou necessidade de organizar materiais. Foi então que ele se lembrou.

— Kaolin! — Tokku berrou indo até o quarto de Amana.

Endi acordou confuso.

— Kaolin, agora! — Tokku chamou novamente.

Ao afastar a cortina preta, viu Amana organizando uma grande mochila.

— Você não vai sozinha! — Ele usou sua voz de Capitão.

— Endi vai comigo. — Amana respondeu com calma.

— Ele concordou com isso? — Tokku se revoltou.

— Ele não tem escolha. Se ficar aqui vai acabar morto. — Amana disse séria.

Tokku saiu bufando do quarto e foi até Kaolin, que dormia bem no meio do tapete. Com as duas mãos, ergueu-a pelos ombros, chacoalhando e chamando seu nome.

— Pode ser. — Kaolin falou ainda dormindo.

Desistindo da garota, Tokku foi até Endi, que já estava sentado, mas ainda não entendia a situação.

— Escuta. Você não pode ir com ela. Não é seguro e ela não tem ideia no que está se metendo. — Tokku parecia desesperado.

— Tudo bem, eu não vou. — Endi respondeu sonolento.

Percebendo que não adiantava conversar com Kaolin ou Endi no momento, Tokku voltou para o quarto de Amana.

— Você não sabe sobreviver lá fora. — Ele disse com firmeza.

— Endi sabe. — Amana tentava colocar seus livros na mochila já cheia.

— Ele não sabe! Você não sabe! Por favor, não faça isso! — Tokku a olhava triste.

— Se você está tão preocupado comigo, venha junto. Assim poderá nos proteger. — A garota tentava fechar a mochila obviamente lotada.

— Isso é injusto. Você sabe que me preocupo com você. Te conheço desde que nasceu. Jamais deixaria algo ruim te acontecer.

— Mais um motivo para nos acompanhar. — Amana insistiu.

— Você também sabe que se você for, Kaolin vai te seguir. Estará condenando a todos nós. — Ele suplicou.

— Tokku. — Amana parou de mexer na mochila e olhou nos olhos do rapaz. — Precisamos tirar Endi da Cidadela para a segurança dele. Por conta de Kaolin ter voltado viva daquela missão e ter sido interrogada pelos anciãos, temo por ela também. Você sabe que sempre quis conhecer a superfície. Agora que tenho o conhecimento de como combater os espíritos e há esperanças de encontrar minha mãe viva, não posso recuar.

— Você não vai desistir por nada? — Tokku tentou uma última vez.

— Não. — Uma lágrima escorria no rosto da garota. — Nem que eu tenha que ir sozinha. Se existe a possibilidade de encontrar minha mãe, não importa o quão pequenas sejam as chances, estou preparada para arriscar minha vida.

Por mais que às vezes Amana se comportasse como se fosse a mais velha do grupo, agindo de maneira madura demais para sua idade, aos olhos de Tokku, ela sempre seria aquele bebê que Kaolin trouxe em seus braços anos atrás. Sentindo que não havia mais nada que pudesse ser dito, Tokku a abraçou. Amana sorriu, abraçando-o de volta.

— Você não vai sozinha. — Kaolin disse.

Ela e Endi espiavam na entrada do quarto.

— Nós vamos com você! — Endi confirmou.

— Pelo jeito, todos vamos. — Suspirando alto e revirando os olhos, Tokku falou olhando para os amigos.

— Primeiro de tudo. — Kaolin começou. — Você não vai levar essa mochila. Na superfície, quanto menos levamos, melhor. Se precisarmos correr, fugir ou se esconder, temos que ter agilidade. E você não aguentaria meio dia andando com isso tudo em suas costas.

Amana olhou desapontada para sua própria mochila, que não conseguia fechar de tão cheia.

— Leve apenas um poncho, para noites frias. — Tokku recomendou. — Uma garrafa com água, que podemos usar para abastecer nos rios ao longo do caminho. Alguns pães para emergências. E pronto.

— Só isso? — Amana não acreditava.

— O que você espera fazer com todos esses livros, essas roupas... Até seu travesseiro? — Kaolin retirava os objetos da mochila.

— Na verdade, não precisam levar nada. — Endi disse com confiança. — Sobrevivi todos esses anos sem essas coisas.

— Antes de decidirmos o que levaremos, temos que conversar sobre para onde vamos e quanto tempo isso vai levar. — Tokku falou.

— Vamos na direção do rio Sanozama, na tentativa de encontrar minha mãe. — Amana respondeu rápido.

— Não sabemos quanto tempo leva, não temos registros de viagens tão distantes. — Tokku tinha uma expressão pensativa.

— Não sei se estão lembrados, — Endi falou timidamente. — mas eu não conheço toda a superfície. Como planejam chegar em um lugar que ninguém nunca foi?

Tokku e Kaolin se sentiram estúpidos. Esqueceram do detalhe mais importante. Estavam planejando uma viagem onde arriscariam suas vidas, e nem sequer conheciam o caminho.

Com uma expressão estranha, igual a de uma criança que sabe que vai se encrencar, Amana foi até sua prateleira. Tirou um papel velho de dentro de uma caixa e o entregou a Tokku. Desdobrando-o, o jovem viu em suas mãos um mapa dos arredores da Cidadela. Kaolin chegou mais perto e ficou de boca aberta ao ver a ilustração.

Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, Amana já se adiantou:

— Vocês não acham que eu insistiria tanto em ir para a superfície se não soubesse para onde estou indo, não é mesmo?

Os mais velhos acharam melhor ficar em silêncio. Mais uma vez a caçula do grupo demonstrava estar um passo à frente.

— Encontrei isso na sala secreta dos anciãos. — Amana contou. — Achei melhor deixar escondido até todos concordarem em ir. Sabia que se mostrasse antes, vocês tentariam escondê-lo de mim, para me impedir de sair.

— Jamais faríamos isso. — Tokku disse olhando para o lado.

— Então sabemos para onde vamos, temos como nos guiar, conhecemos um meio de nos proteger contra os espíritos... Faltou pensar em algo? — Kaolin perguntou.

— Apenas que temos que ir antes do fim do dia. — Endi disse com a voz um tanto trêmula. — Antes que acabem comigo.

— De acordo com o calendário, hoje deve ser uma noite de Lua Nova. É o momento perfeito, e provavelmente o mais seguro, para irmos lá fora. — Amana pontuou.

— Tudo bem. O plano é o seguinte. — Tokku se preparava para dar as instruções aos colegas.

Decidiram que Amana e Endi esperariam na casa, cada um com uma mochila pequena, levando apenas água, alguns alimentos, faixas e curativos, além dos famosos ponchos quentinhos. Como não sabiam as situações que enfrentam na superfície, e como teriam que escapar às pressas da Cidadela, resolveram levar apenas o básico.

Kaolin levaria pequenos pedaços de cristais, que pegaria escondido enquanto todos estivessem distraídos no terceiro andar. Decidiram fugir durante a festa. Tentar sair antes chamaria muita atenção, o melhor era esperar todos estarem distraídos com o festival. Além dos cristais, Kaolin prepararia algumas cordas, facas e outros equipamentos que seriam úteis quando fossem acampar.

Já Tokku, ficou encarregado de pegar as chaves que abriam a passagem para a superfície, o que não era muito complicado, pois ele era o responsável por esse trabalho e tinha livre acesso. Não achou necessário levar mais nada além de tudo que já combinaram, então dividiria a mochila com Kaolin durante o trajeto.

Ansiosos, o grupo aguardou algumas horas até os outros moradores começarem a se dirigir para o festival. Tudo já estava preparado e organizado. Quando grande parte das pessoas estavam no terceiro andar, Kaolin foi escondida até uma sala abandonada, escavando vários cristais e colocando-os em seus bolsos. Quando retornou para casa, Tokku, Amana e Endi a aguardavam prontos.

— Não esquecemos de nada? — Kaolin olhava nas mochilas mais uma vez.

— Tem certeza de que querem fazer isso? — Tokku parecia se arrepender.

— Vamos logo, os assassinos podem atacar a qualquer minuto agora! — Implorava Endi.

— Já chequei várias vezes, está tudo aí. — Amana tirava a mochila das mãos da irmã.

Olhando para Tokku, Kaolin percebeu o que estava esquecendo. Correu até seu quarto e voltou com dois machados. Durante o treinamento dos Exploradores, cada um deles podem escolher uma arma para se especializar. Mesmo sem histórico de pessoas que lutaram contra algum espírito e sobreviveram, todos se sentiam mais seguros para ir até a superfície sabendo como se defender.

No dia em que começou seu treinamento, Tokku escolheu uma espada. Conforme os anos foram passando, como desenvolveu uma grande habilidade, passou a treinar usando duas, uma em cada mão. Quando chegou o momento de Kaolin escolher sua arma, admirando o treinamento avançado de Tokku, a garota pegou dois machados.

A cerimônia para escolher sua própria arma é algo de extrema importância para aqueles sorteados a serem Exploradores. Acontece logo quando as turmas se separam e iniciam os estudos especializados. É com aquela arma que você vai treinar e é com ela que vai defender sua vida no mundo exterior.

Tokku carregava sua espada pendurada na cintura. Apesar de saber lutar com ambas as mãos, preferia usar apenas a esquerda. Kaolin prendeu ambos os machados na mochila, carregando-os em suas costas. Os dois seriam responsáveis pela segurança do grupo, já que Endi e Amana nunca treinaram para essa função e não tinham experiência no assunto.

— Então é isso. — Kaolin afirmou.

— Então é isso. — Repetiu Amana.

— Podemos ir? — Endi olhava para os machados.

Lin apareceu no último minuto e correu até Kaolin, escalando a garota, se posicionou na cabeça dela, deixando claro que pretendia acompanhá-los na jornada.

Apesar de estarem prontos, se sentiam estranhos em deixar o local. Uma sensação difícil de explicar, como se fosse a última vez que o grupo se reuniria naquela sala, sobre o grande tapete roxo.

Eles ainda não sabiam o que iriam fazer após encontrarem, ou não, Taîyra. Apenas precisavam sair depressa da Cidadela para salvar a vida de Endi. Não conseguiam ver o que os aguardava no futuro. Todas as suas expectativas estavam depositadas na esperança de encontrarem a Exploradora.

Apagando as velas espalhadas pela casa, olhando para sua sala pela última vez, Kaolin e Amana se despediram de seu lar.

O grupo caminhou apressado, subindo os andares pelas partes mais distantes e vazias. Ao alcançarem o terceiro andar, tomaram cuidado em dobro, para não serem vistos por ninguém conhecido ou pelos guardas. Quando Amana fez algo totalmente inesperado.

— Preciso de um minuto. — A garota disse.

Colocando sua mochila no chão, Amana correu em direção a multidão. Kaolin olhou a cena de boca aberta e olhos arregalados. Endi e Tokku tinham expressões de horror em seus rostos. Não conseguiam acreditar que ela colocou tudo em risco, sendo que foi ela quem insistiu tanto para todos irem nessa missão.

Amana correu o mais rápido que podia, procurando no meio de toda aquela gente, buscando sua amiga. Não conseguiria partir sem se despedir. Especialmente sem saber se voltaria algum dia. Amana não demonstrava abertamente seus sentimentos, mas se importava muito com seus amigos. Avistando Potira, disparou na direção da garota.

— Oi! — Potira sorriu inocentemente quando a amiga parou em sua frente.

Sem dizer uma única palavra, Amana abraçou-a com força. Não havia tempo de explicar toda a situação, a missão já era arriscada o suficiente e Amana tinha consciência que colocava tudo a perder naquele instante.

Aquele foi o abraço mais longo que Amana deu em toda a sua vida, ou pelo menos foi essa a sensação que ela teve. Olhando nos olhos de Potira, sentia como se a garota entendesse o que ela queria dizer mas não conseguia. Amana se virou e correu, se misturando à multidão novamente.

Quando voltou onde tinha se separado do grupo, não havia mais ninguém no local. Amana estava sem fôlego e sentia tontura. Colocando as mãos nos joelhos e tentando normalizar sua respiração, escutou um barulho.

— Psiu!

Olhando em direção a escuridão, viu Kaolin acenando para ela. O grupo estava escondido em uma sala sem iluminação, aguardando Amana.

— O que diabos foi isso? — Tokku disse nervoso.

— Precisava me despedir de Potira. — Amana falou ofegante.

— Como não fez isso antes? — O Capitão estava preocupado. — Também precisava me despedir dos meus pais, mas não deixei isso para o último minuto!

— Seus pais sabem do nosso plano? — Kaolin perguntou curiosa.

— Não todos os detalhes. Mas não podia sumir e deixá-los sem saber o que aconteceu conosco. — Tokku disse mais calmo.

— Tudo bem, mas vamos logo... — Endi choramingou.

Ao saírem da sala, foram até a escada mais afastada, chegando em segurança no segundo andar. Caminhavam apressados em silêncio. Milagrosamente alcançaram o primeiro andar sem serem vistos.

— A saída é naquela direção. — Tokku liderava o grupo.

— Que sorte que não tem ninguém aqui. — Endi sorriu nervoso.

Mas era cedo demais para celebrar, pois a sorte não estava mais ao lado deles. Haviam dois guardas na entrada do túnel que leva a superfície.

— Droga, eles nunca ficam aqui durante o festival! — Tokku pegava as chaves em seu bolso.

— Provavelmente é uma precaução caso Endi tentasse fugir. — Kaolin se preparava.

Os guardas avistaram o grupo, e apontando para Endi, começaram a correr na direção do garoto.

— Você acha? — Amana disse com sarcasmo.

— Abra o portão na entrada do túnel. — Tokku entregou as chaves à Amana. — Vá até o final e abra o outro portão que leva à superfície, mas não saia do túnel. Nos aguarde.

Pegando sua espada e parando um guarda que atacou Endi com uma lança, Tokku gritou:

— Endi, vá com a Amana!

Lin pulou e se segurou na mochila de Endi, quando Kaolin chutou a perna do outro guarda, que tentou seguir o garoto, derrubando-o.

Enquanto Amana e Endi tentavam abrir o portão e entrar no túnel, Tokku e Kaolin lutavam com os guardas, que pareciam não ter interesse nenhum na batalha, apenas tentavam se aproximar de Endi.

— Isso confirma que eu sou o alvo. — Endi falou gaguejando.

— Consegui! — Amana abriu a passagem.

— Vão! — Kaolin berrou enquanto segurava o guarda pelo braço.

Endi entrou correndo, segurando na mão de Amana, arrastando-a junto. Ele já havia passado por ali uma vez, e conhecia bem o mundo lá fora, mas a garota não tinha ideia do que a esperava. Amana corria olhando para trás, esperando apreensiva pela irmã e pelo amigo. Finalmente alcançaram o portão final, a última barreira que os separava dos espíritos.

Amana abriu a fechadura com dificuldade, pois suas mãos tremiam com a adrenalina do momento. Endi se apressou, levando a mão até o portão, mas Amana segurou em seu braço, o impedindo:

— Temos que esperá-los.

Olhando na escuridão do túnel, viram Kaolin e Tokku correndo a uma velocidade incrível.

— Vamos! — Tokku gritou.

Em um piscar de olhos, eles haviam alcançado a saída. Tokku e Kaolin não conseguiram parar a tempo, se jogando contra o portão, o abriram tão rapidamente, que Amana e Endi ficaram assustados.

— Rápido! — Kaolin chamou.

Haviam guardas vindo atrás deles, não apenas dois, mas uma quantidade que os deixaram em pânico. Endi saiu correndo. Kaolin pegou a chave da irmã e a jogou no chão, para que os guardas pudessem trancar a Cidadela novamente em segurança. Segurou na mão de Amana e a puxou para fora do túnel.

— Nos leve para algum lugar que você conheça e acha que é seguro! — Kaolin implorou à Endi.

— Eles não vão nos seguir se adentrarmos a floresta. Vamos! — Tokku correu, seguindo Endi.

Os guardas já estavam na superfície e iam atrás do grupo. Endi guiava os amigos na direção da mata fechada. Tokku e Kaolin corriam desesperados, pois sabiam que não conseguiriam lutar contra todos os guardas ao mesmo tempo. Mas para Amana, o tempo passava devagar.

Ela era a única do grupo que nunca esteve fora da Cidadela. Enquanto a irmã a puxava pela mão, Amana sentia como se o mundo estivesse em câmera lenta. Olhando para o céu, hipnotizada pela Lua, se encantou com a visão. A garota era apaixonada pelas histórias e lendas envolvendo o astro. Estava tão concentrada vendo o céu pela primeira vez em sua vida que não prestava atenção em mais nada ao seu redor.

O grupo havia alcançado a floresta, mas os guardas ainda os perseguiam. Precisavam ir mais longe, mais fundo na mata, para despistar os perseguidores. Correndo para salvar sua vida e proteger os novos amigos, Endi usou todas as suas forças. Após algum tempo, chegaram na entrada de uma caverna.

— Passei várias noites aqui e nunca encontrei outro humano. — Endi disse caindo deitado no chão.

Lin, que passou todo o tempo agarrado na mochila do garoto, desviou depressa, quase sendo esmagado.

— Acredito que eles não terão coragem de vir até aqui. — Tokku sentou encostando na parede.

Kaolin e Amana se jogaram no chão, respirando com dificuldade. A caçula tinha certeza que nunca correu tanto em toda a sua vida. Sentindo as pernas tremendo e o corpo ardendo, com dificuldade tentava recuperar o fôlego.

— Vamos aguardar alguns instantes, se sentirmos que é realmente seguro, passamos a noite aqui. — Sugeriu Tokku.

Ninguém respondeu. Endi sentia que mesmo que não fosse completamente seguro, iria ficar ali mesmo, pois estava sem forças para correr até uma caverna mais distante.

Por alguns minutos todos apenas respiraram em silêncio. Quando Tokku sentiu confiança, foi do lado de fora buscar alguns galhos e folhas. Montou uma fogueira dentro da caverna, para os manter aquecidos durante a noite. Kaolin distribuiu um pão para cada, junto com a garrafa de água. Era estranho demais estar fora da Cidadela. Endi provavelmente era o único confortável naquela situação.

À distância, ouviam sons de animais vindo lá de fora. A floresta era algo que despertava grande curiosidade, apesar dos perigos presentes nela.

— Amana, consigo ver no seu rosto que você quer sair e explorar. — Tokku disse.

— É que... — Amana começou.

— Por favor, aguarde até amanhã. — Ele pediu.

— Ainda podem haver guardas por aí. — Kaolin reforçou.

— Teremos vários dias e noites para aproveitar a natureza. — Colaborou Endi.

— Tudo bem. — Amana se deu por vencida.

Pensando em distrair a irmã, Kaolin resolveu contar uma das histórias preferidas dela.

— Endi, você sabia que algumas pessoas, especialmente as mais velhas, acreditam que a Lua é um espírito? — Kaolin começou.

— Jura? — Endi perguntou.

— Nos contavam essa história quando éramos crianças. — Kaolin sorriu para a irmã. — Antes dos humanos serem destruídos pelos espíritos que despertaram da grande escuridão, o único espírito que se tinha conhecimento até então era a Lua. É o mais antigo e mais poderoso ser com quem a humanidade já teve contato.

Amana olhava a luz do luar na entrada da caverna enquanto ouvia a história.

— Dizem que uma mulher de grande beleza, apaixonada pela Lua, sonhava em se transformar em uma estrela. — Kaolin contava enquanto acariciava Lin em seu colo. — Tudo que ela mais queria, era passar a eternidade ao lado de quem ela mais amava. A mulher tentou de tudo para chamar a atenção da Lua. Subia nas montanhas mais altas, corria tentando alcançá-la, sempre buscando se aproximar de seu grande amor.

Endi ouvia atento.

— As outras pessoas não entendiam os sentimentos da mulher. — Kaolin olhava para a fogueira. — Ninguém compreendia o amor genuíno que ela sentia. Certa noite, cansada de lidar com os outros humanos, sentada à beira de um rio, a mulher notou a imagem da Lua refletida na água. Sendo hipnotizada pelo brilho do luar, sentindo uma enorme paixão pelo espírito, e um desejo incontrolável de estar ao seu lado, a mulher se inclinou para beijar o reflexo na água, caindo no rio.

Tokku sentiu seus olhos ficando pesados.

— Imaginando que a Lua estava no fundo do rio, a mulher nadou e nadou, até chegar nas profundezas. — Kaolin abaixou o volume de sua voz. — Ao notar o erro que havia cometido, tentou retornar à superfície, mas já era tarde demais. Ela morreu afogada.

Inesperadamente, Tokku havia adormecido.

— O espírito da Lua, observando a devoção da mulher, ficou comovido e resolveu atender seu pedido. O corpo no fundo do rio subiu até o céu, se iluminando e se transformando em uma grande estrela. Enfim, após anos de dedicação, a mulher conseguiu realizar seu grande sonho.

— Você sabe o motivo de essa ser uma das minhas histórias preferidas? — Amana perguntou.

— Porque você é como a mulher, apaixonada pela Lua. — Kaolin respondeu brincando. — Na verdade é pior do que ela, pois você nunca nem tinha visto a Lua antes.

— Não... — Amana revirou os olhos. — É porque essa é praticamente a única história da Cidadela que não retrata os espíritos como algo maligno.

— Mas os espíritos são malignos. Eles quase dizimaram a humanidade. — Kaolin disse confusa.

— Isso é algo que sempre me incomodou. — Amana tentou explicar. — Deve existir algum espírito que não seja tão mal assim. Algum como a Lua.

— Pode até ser. Quem sabe não descobrimos ao longo do caminho. — Kaolin bocejou.

— Boa noite. — Amana riu baixinho, se deitando ao lado da irmã.

Kaolin já estava com os olhos fechados. Lin e Endi dormiam perto da fogueira. Amana ainda ficou alguns minutos acordada, pensando sobre várias coisas, mas logo adormeceu.

CURIOSIDADES


Os andares da Cidadela:

Paredão Oeste

1º andar
Plantações

2º andar
Plantações

3º andar
Sala de reuniões, sala dos anciãos, prisão e enfermaria

4º andar
Oficinas dos artesãos, ferreiros e carpinteiros

5º andar
Campo de Treinamento

6º andar
Moradia de pessoas importantes

7º andar
Moradia de pessoas importantes (Tokku mora aqui)

8º andar
Moradia de pessoas comuns

9º andar
Moradia de pessoas comuns

10º andar
Moradia de pessoas comuns

Paredão Leste

1º andar
Plantações e saída para superfície

2º andar
Plantações

3º andar
Grandes Salões

4º andar
Oficinas dos artesãos, ferreiros e carpinteiros

5º andar
Escola

6º andar
Moradia de pessoas importantes

7º andar
Moradia de pessoas importantes

8º andar
Moradia de pessoas comuns

9º andar
Moradia de pessoas comuns

10º andar
Moradia de pessoas comuns (Kaolin e Amana moram aqui)



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