27/08/2022

LIVRO - Capítulo 7 - A Jornada


Leia no Wattpad: Os Últimos Humanos

CAPÍTULO 7 - A JORNADA


Se Kaolin realmente não sentia dor, ninguém conseguia confirmar. Apesar da expressão de cansaço, a garota dizia estar ótima e bem disposta. Tudo aparentava estar normal durante o café da manhã, e como não queriam perder mais tempo discutindo, resolveram seguir em frente, confiando que Kaolin de fato não estava mal.

Mesmo com medo, continuar era a melhor opção. Não havia muito que a Cidadela pudesse oferecer para eles agora, além do risco de voltar e serem presos, ou mortos, pelos guardas.

Andaram a manhã toda, adentrando novamente a mata fechada. Lin pulava alegre pelas árvores, se mostrando o mais energético do grupo. Percebendo a preocupação dos colegas, Kaolin começou a se sentir incomodada. Tentando tirar o foco de seu braço ferido, resolveu conversar sobre algo que todos ali tinham interesse.

— Endi, você conhece alguma história dos espíritos? — Kaolin perguntou.

— Eu? — O garoto foi pego de surpresa.

— Sim! — Sorriu Kaolin.

— Bem, meus pais me contaram algumas. — Endi disse coçando a bochecha. — Mas não sei se lembro todos os detalhes.

— Nos conte alguma. — Amana se interessou.

— Tudo bem, mas não posso garantir que vão gostar. — Inseguro, Endi tentava relembrar o conto. — Acredito que a história do espírito Anuiob era a preferida do meu pai, pois era a que ele mais gostava de contar.

Endi olhou para o grupo ansioso. Eles caminhavam tranquilamente, porém alertas a tudo que acontecia ao redor.

— Muito tempo atrás, — O garoto prosseguiu. — uma moça ficou grávida de um espírito que vivia no rio. Alguns pensavam que o espírito havia a capturado, mas na verdade foi ela quem se entregou a ele. A moça deu à luz a crianças gêmeas, um menino e uma menina, que nasceram deformados com aparência semelhante a de uma cobra. Horrorizada pelo aspecto de seus filhos, ela os lançou no rio.

Amana olhou para Kaolin, fazendo um sinal para a irmã ficar em silêncio.

— Apesar disso, o menino cresceu bondoso, — Endi seguiu contando. — mas a menina guardava um grande rancor de sua mãe. Com um ódio que crescia cada vez mais dentro de si, a menina começou a devorar aqueles que se aproximavam do rio. Cansado dos terríveis atos de sua irmã, com tristeza o menino resolveu matá-la para pôr um fim em todo aquele sofrimento.

Tokku ia na frente, guiando o grupo, prestando atenção com medo de algum ataque surpresa.

— Após matar a menina, — Endi foi concluindo a história. — o irmão ganhou a habilidade de se transformar em humano e caminhar pela terra durante a noite, voltando a sua forma de cobra com o nascer do Sol. Em segredo, ele vagava pelas vilas, procurando por sua mãe, sem nunca a encontrar.

— Que triste... — Amana falou baixinho.

— Não conto tão bem quanto meu pai, mas creio não ter esquecido nenhum detalhe importante. — Endi tentou parecer confiante.

— Queria saber onde seu pai ouviu essa versão. — Kaolin começou.

— Como assim? — O garoto a olhou confuso.

— A Cidadela conta a história de Anuiob de um jeito diferente. — Amana explicou.

— Jura? — Se indignou Endi.

— O que nos ensinaram foi que havia uma mulher muito cruel, que matava e devorava crianças de uma vila. — Contou Kaolin. — Quando os moradores descobriram que ela era a responsável pela morte de seus filhos, a capturaram e a jogaram no rio.

— Já começa totalmente diferente! — Endi se horrorizou.

— Só que ela não morreu! — Kaolin ria do desespero do amigo. — A mulher foi salva por um demônio que vivia na água. Eles se casaram e juntos tiveram um filho, um espírito, que tinha o corpo de uma grande cobra.

— Essa é mesmo a mesma história? — Endi não conseguia aceitar.

— Com o passar do tempo, ele cresceu e cresceu, comendo todos os peixes e criaturas que viviam ali, até ficar gigantesco. — Kaolin continuava sem parar. — O espírito do menino-cobra não cabia mais dentro do rio. Então, ele resolveu sair e devorar os habitantes que viviam próximos.

— Isso é sério? — Endi revirou os olhos.

— Como não havia mais peixes no rio, sua mãe acabou morrendo de fome e seu pai desapareceu. — Kaolin prosseguiu. — O menino ficou tão furioso consigo mesmo que resolveu morar embaixo da terra, se isolando para sempre. Esse espírito ficou conhecido como Anuiob.

— Esse é o mesmo conto? Certeza? — Endi gritava revoltado.

Kaolin apenas ria da situação.

— São histórias diferentes. — Amana refletia. — Pode ser que nem seja o mesmo espírito, apenas usaram o mesmo nome. Talvez tenham se confundido quando registraram nos livros.

— Acredito que essa história não está escrita em lugar nenhum. — Tokku falou. — Nunca lemos essa versão antes. Pode ser que os pais de Endi ouviram dos pais deles e o conto foi passado de geração em geração.

— Interessante. — Amana tinha uma expressão curiosa.

Endi andava pisando forte, deixando pegadas fundas no solo, sentindo como se sua história não tivesse deixado o impacto que ele almejava. Kaolin segurava o riso, tentando não ofendê-lo.

Após alguns minutos, se lembraram que precisavam de mais água. Haviam acabado com suas reservas de água comum, restando apenas uma única garrafa com água curativa, que Kaolin se recusava a beber e preferia guardar para alguma emergência.

Endi dizia poder encontrar rios e lagos pelo "cheiro da água" e cachoeiras pelo barulho. Os outros duvidaram de sua habilidade no começo, rindo do colega. Mas ao longo da viagem, Endi se mostrava cada vez mais confiante e certeiro, ganhando o respeito do grupo.

— Garanto que há uma fonte de água à direita. — Confirmou o rapaz.

Todos se olharam alegres e correram na direção indicada. Poucos metros de onde estavam, havia uma lagoa.

— Você realmente sentiu o cheiro? — Amana perguntou espantada.

A expressão no rosto de Endi claramente dizia que "sim".

Apreensiva, Kaolin, que tinha o rosto cada vez mais pálido, se colocou de joelhos na margem e pegou um pouco de água com sua mão esquerda. Os outros a olhavam enquanto bebia.

— É água comum. — Disse desapontada.

Se aproximando, eles começaram a encher as garrafas. Encontrar água era algo essencial para a viagem, mas não conseguiam disfarçar que todos tinham esperanças que aquela lagoa teria uma água curativa potente o suficiente para curar o braço de Kaolin.

Após se abastecerem, seguiram em silêncio por alguns minutos.

— Sabe, isso me lembrou um sonho que tive na outra noite. — Endi falou tentando animar o grupo novamente.

— Você sonhou com algo divertido? — Tokku, percebendo a intenção do rapaz, tentou ajudar.

— Enquanto Tokku e Kaolin arrumavam o jantar e acendiam a fogueira, Amana e eu fomos buscar água. Lin não estava no sonho. — Endi riu olhando para o macaco. — Eu me curvei na direção da lagoa e sem querer escorreguei para dentro dela. Apesar do susto, Amana ria. Não era uma lagoa funda e eu sei nadar, se for necessário.

Amana sorriu, ouvindo o jeito que o garoto contava o sonho.

— Saí da água mau humorado. Sabia que seria difícil secar minhas roupas sem a luz do dia. — Endi fazia gestos elaborados com as mãos. — Ah, já era de noite no sonho. Então Amana colocou as garrafas com água encostadas em uma árvore próxima e me perguntou se eu estava bem.

— Você realmente sonhou isso? — Kaolin parecia duvidar.

— Eu olhava fixamente para minha esquerda, encarando algo que parecia estar do lado dela. — Endi dizia. — Virando sua cabeça, Amana olhou na mesma direção que eu e segurou o grito. Era um espírito! Ela correu me arrastando de volta para o acampamento. Lá, Lin estava levando alguns gravetos para Tokku, que acendia a fogueira.

— Você disse que não sonhou com Lin. — Tokku riu do amigo.

— É que ele apareceu depois! — Endi continuou. — Kaolin arrumava o local onde dormiríamos, estendendo os ponchos no chão. Quando vocês ouviram passos se aproximando, rapidamente pegaram suas armas e ficaram em alerta máximo. Mas era apenas a Amana que apareceu de repente, me puxando.

Todos ouviam a história em silêncio.

— Ofegante, Amana disse que havia um espírito dormindo próximo a lagoa. — Endi falava alto. — Tokku queria aproveitar que a criatura estava adormecida e tentar selá-la. Amana queria fugir. Kaolin segurava seus machados querendo lutar.

— Certeza que vocês causaram uma confusão. — Amana revirou os olhos.

— A lagoa estava calma e pacífica, refletindo o brilho das estrelas. — Agora Endi fazia gestos com o corpo inteiro, enquanto narrava seu sonho. — O espírito ainda estava deitado imóvel perto da margem. Tokku fez um sinal com sua mão, indicando que Kaolin esperasse onde estava, enquanto ele se aproximava da criatura silenciosamente. O espírito tinha uma forma monstruosa, como se fosse uma mistura entre humanos com outras espécies de animais. Sua cabeça possuía um focinho como o de um tamanduá. Apesar do corpo ter um formato humano, haviam patas de lobo no lugar de suas mãos e pés. Parecia ser muito forte e tinha muitos pelos.

Amana olhava surpresa, empolgada com o rumo da história.

— Então Tokku pegou o cristal em seu bolso. — Endi se movimentava lentamente. — Estendeu sua mão, tentando manter o corpo o mais longe possível, esforçou-se para alcançar a boca do espírito. Tokku transpirava de nervoso, sentindo o suor escorrendo em sua testa, enquanto nós olhávamos a cena escondidos atrás de uma grande árvore. Quando o cristal tocou os lábios da grande criatura, Tokku prendeu sua respiração. Se aproximando para empurrar o cristal, dando um passo à frente, sem perceber pisou em um galho que se quebrou.

— O que!? — Kaolin gritou, achando aquilo ridículo.

— Com o som do galho se partindo, o espírito se movimentou. — Endi prosseguiu. — Sem aguentar a tensão do momento, Kaolin correu a toda velocidade na direção de Tokku. Ele a olhou horrorizado. Para a surpresa de todos, voando pelos ares, Kaolin saltou e esticou sua perna esquerda, empurrando o cristal para dentro da boca da criatura com um chute poderoso. Se fosse qualquer outra pessoa segurando o cristal, provavelmente teria sido golpeada junto com ele. Mas Tokku, com seus excelentes reflexos, conseguiu soltar a tempo, livrando sua mão do chute de Kaolin.

Tokku tinha uma expressão de orgulho em seu rosto.

— Um brilho iluminou todo o local, igual como aconteceu quando selamos Equusignis. Sobrando apenas o cristal, onde antes havia um espírito. — Endi abaixou o volume de sua voz. — Segurando com cuidado, Tokku entregou-o a Amana, que o embrulhou em um pano.

— Que espírito era aquele? — Tokku perguntou curioso.

— Provavelmente Obolepac. — Amana respondeu.

Endi fez uma careta.

— Faz sentido pela descrição. — Amana falou.

— Não é só isso. — Endi contou. — Ele emite sons assustadores e se alimenta de outros animais. Mas não de qualquer animal, apenas come os que acabaram de nascer.

Amana o olhou horrorizada.

— Quando encontra humanos, os ataca e os mata, bebendo seu sangue. — Endi finalizou.

O Sol estava prestes a se pôr. O grupo estava mais animado mas não conseguiam esconder que se sentiam exaustos, após um dia inteiro de caminhada. Faziam pausas para comer, mas todos concordavam que era melhor não pararem por muito tempo. Além de terem medo de ficar no mesmo local por um grande período, desejavam alcançar seu objetivo o mais rápido possível.

— Vamos parar por aqui. — Tokku disse.

Seguiram o mesmo padrão das noites anteriores, montando acampamento e jantando o que colheram pelo caminho. Apesar do fascínio pelo mundo exterior, Amana e Tokku estavam mais preocupados com o estado de Kaolin.

— Será que algum espírito vai aparecer hoje? — Endi perguntou ansioso.

— Pelo jeito, há maiores chances de nos atacarem durante a noite. — Amana respondeu.

— Podemos nos revezar e vigiar durante a noite. — Sugeriu Tokku.

— Não acho que vamos ser atacados dois dias seguidos. — Kaolin colocava um potinho com água na frente de Lin.

— Isso não faz o menor sentido. — Amana revirou os olhos.

— Vou começar vigiando, vocês podem dormir. — Tokku falou firme. — Quando estiver com muito sono, acordo a Amana. Quando Amana se cansar, é a vez de Endi. Então provavelmente já será de manhã.

— E eu? Não vou ajudar? — Kaolin o olhou indignada.

— Sua prioridade é se recuperar. — Tokku disse encerrando o assunto.

Sem discutir, com medo de causar uma briga, Kaolin resolveu se deitar. Endi e Amana fizeram o mesmo.

Tokku ficou acordado por várias horas, se mantendo em alerta máximo. Quando o sono realmente parecia inevitável, seus olhos já estavam se fechando sozinhos e ele não confiava mais na sua capacidade de vigiar os amigos, acordou Amana.

— Qualquer problema, me chame o mais rápido possível. — Ele disse à garota.

Amana estava sonolenta, mas foi despertando depressa e rapidamente já se sentia bem. A jovem estava acostumada a dormir pouco, pois passava várias noites lendo livros escondida na Cidadela.

Andando em volta do acampamento, Amana colheu algumas folhas e flores, e os levou até a fogueira, examinando-os na iluminação do fogo. Enquanto estudava a vegetação, a garota acreditou ouvir passos. Ao olhar na direção do barulho, viu uma silhueta familiar.

— Um humano... — Amana mexeu os lábios, quase não produzindo som.

Um homem se aproximava lentamente dela.

— Boa noite. — Ele cumprimentou-a educadamente, mas com um sorriso arrogante.

Amana não conseguia responder. Era como se ela estivesse paralisada. O homem possuía uma beleza inexplicável. Ele era alto e esbelto, usava um terno branco muito elegante. Tinha cabelos negros, que apesar de curtos, faziam ondas visíveis por baixo do chapéu.

Parada, agachada ao lado da fogueira, Amana olhava hipnotizada o homem chegando mais e mais perto.

— Me chamo Geoffrensis. — Ele se apresentou.

Estendendo o braço, o homem segurou a mão de Amana, que se deixou ser guiada por ele, floresta adentro.

***

Pouco tempo antes do Sol nascer, Tokku despertou bocejando. Olhando ao redor enquanto se espreguiçava, viu Kaolin dormindo com Lin. A fogueira estava apagada. Do outro lado, Endi roncava baixinho. Passando a mão no cabelo, Tokku se preparava para um segundo bocejo, quando se deu conta que Amana não estava entre eles.

— Endi! — Tokku gritou desesperado.

O garoto acordou e olhou ao redor assustado.

— É um espírito? — Endi perguntou.

— Amana sumiu. — Tokku foi direto ao assunto. — Ela não te acordou para vigiar durante a noite?

— Não! — Endi respondeu aflito.

— Temos que procurá-la. Acorde Kaolin. — Tokku falou sério.

Enquanto Endi acordava a garota, Tokku olhou ao redor, procurando alguma pista. Então pegou os pertences espalhados, arrumando as mochilas com velocidade e preparando sua espada.

— Pois não? — Kaolin acordou.

— Fique calma. — Endi tentou prevenir que ela surtasse. — Amana sumiu e estamos indo procurá-la.

A expressão no rosto da jovem era de puro horror.

— Amana! — Kaolin gritou levantando depressa.

— Você tem que levar a sua mochila e a de Amana. — Tokku entregou as duas mochilas para Endi. — Não podemos deixar itens para trás.

O Capitão carregava a mochila compartilhada, segurando a espada desembainhada. Endi colocou uma mochila nas costas e a outra em sua frente.

— Amana! — Kaolin berrava olhando à sua volta.

— Kaolin. — Tokku a segurou pelos ombros.

— Amana! — Ela chamava o mais alto que conseguia.

— Kaolin! — Tokku gritou. — Ela deixou rastros. Vamos seguir a trilha, vamos encontrá-la.

Os olhos de Kaolin se encheram de lágrimas, mas ela conseguiu segurar o choro. Tokku estava extremamente preocupado com o sumiço de Amana, ao mesmo tempo em que se preocupava com Kaolin, que tinha o rosto cada vez mais pálido. Apesar das constantes afirmações de que estava bem e não sentia dor, a garota claramente estava mal.

— Preciso que fiquem focados. — Tokku falou para Endi e Kaolin. — Vamos nos manter juntos e seguir aquelas pegadas.

Apontando para onde Amana foi com o homem misterioso durante a noite, avistaram no chão algumas pegadas. Kaolin enxugou as lágrimas, chamou Lin com um sinal e começaram a acompanhar Tokku. Caminhando apressados, seguindo a trilha deixada por Amana, avançando pela floresta.

— Agora entendo o motivo de meus pais nunca terem se afastado daquele local onde cresci. — Choramingava Endi. — Realmente têm espíritos em todos os lugares!

De repente, Kaolin viu algo familiar. No meio das folhas e galhos que cobriam todo o ambiente ao redor, a garota viu o pé de sua irmã. Arregalando os olhos, correu a toda velocidade. Tokku e Endi a seguiram imediatamente.

Removendo as plantas que atrapalhavam sua visão e barravam seu caminho, Kaolin desesperadamente tentava chegar ao local à sua frente. Quando enfim conseguiu alcançar uma pequena área onde a vegetação não era tão densa, encontrou Amana jogada no chão. Kaolin não conseguia se mover. Paralisada, tremia de ódio.

— O que acontece? — Endi perguntou chegando no local.

Kaolin olhava fixamente para a sua frente.

— Quem é você? — Tokku gritou nervoso.

Olhando na direção de Amana, Endi viu um homem parado de pé perto da cabeça da garota.

— Saia de perto dela! — Gritou Tokku.

Agindo a uma velocidade quase sobre-humana, Kaolin pegou um de seus machados que estava preso na mochila carregada por Tokku. Disparou na direção do homem de branco, dando um grande pulo e atacando-o com sua arma.

Um segundo atrás, Kaolin estava do lado de Endi. Mas quando ele piscou, a garota já estava a metros de distância. Tudo aconteceu muito rápido, nem mesmo Tokku conseguiu reagir a tempo. Ninguém entendia de onde a jovem tirava forças para se mover daquele jeito.

Por mais rápida que Kaolin fosse, ainda assim o homem conseguiu desviar de seu golpe. Quando ele se afastou, ela aproveitou para checar Amana. Enquanto conferia o pulso da irmã, Kaolin encarava o estranho.

— Ela está bem. — Disse o homem calmamente.

Tokku e Endi também se aproximaram de Amana. Kaolin fez um sinal de positivo com a cabeça, indicando aos amigos que a irmã estava viva.

— Eu disse. Ela está apenas dormindo. — O homem sorriu arrogante.

— O que você fez com ela? — Kaolin perguntou apontando o machado para ele.

— Me chamo Geoffrensis. — Tirando o chapéu e se curvando, o homem os cumprimentou.

— Ninguém perguntou o seu nome! — Kaolin arremessou seu machado.

Sem mexer o resto do corpo, apenas movendo sua cabeça alguns centímetros, Geoffrensis desviou do golpe mortal. O machado ficou preso na árvore atrás dele.

— O que aconteceu com a minha irmã? — Kaolin pegava o outro machado da mochila.

Tokku tentou segurar Kaolin, com medo que ela acabasse prejudicando seu braço ferido. Enquanto Endi, com a ajuda simbólica de Lin, arrastavam Amana para longe da confusão.

Observando a cena caótica, Geoffrensis começou a rir. Sua risada sinistra se transformou em gargalhadas cada vez mais altas e bizarras. Todos o olhavam assustados.

— Vocês são interessantes. — O misterioso homem ficou sério de repente. — Ela só está adormecida. A humana está bem.

— A humana? — Tokku estranhou a fala.

— Ah, sim. — Geoffrensis sentou com delicadeza em uma grande pedra à sua esquerda. — Eu sou o que vocês chamam de espírito.

Ninguém conseguiu responder aquela afirmação.

— Peço desculpas pela garota. — Geoffrensis apontava para Amana. — É de minha natureza e não consigo evitar.

— O que? — Kaolin gritou.

— Entendam, é parte de minha essência. — Geoffrensis cruzou as pernas. — Quando encontro jovens donzelas paradas à luz do luar, é complicado. Mas apenas a trouxe hipnotizada até aqui.

— Como você é um espírito se você está falando? — Endi interrompeu em pânico. — Por que você tem forma humana?

— Esquece isso! Vamos dar o fora daqui! — Tokku pegou Amana em seus braços.

— Espere. — Kaolin falou séria.

Geoffrensis ainda tinha um sorriso arrogante em seu rosto. Kaolin o olhava nos olhos.

— Que tipo de espírito é você? — Ela perguntou o encarando.

— Você realmente quer conversar com ele? — Endi se preparava para fugir com Tokku.

— Amana acreditava que nem todos os espíritos eram malignos. — Kaolin disse. — E então, que tipo de espírito é você?

— Primeiro, vários espíritos conseguem se comunicar com humanos. — Geoffrensis parecia entediado agora que Kaolin estava mais calma. — Segundo, eu só tenho essa forma fora da água. Assim que entro no rio, volto para minha forma natural.

Kaolin não baixou sua guarda, mas escutava o que ele dizia com atenção.

— Seu braço. — O homem olhou para o membro ferido de Kaolin. — Procure por Syreni. Ela provavelmente é a única que pode te ajudar.

— Onde a encontro? — Kaolin perguntou séria.

— Vá na direção do Sanozama. — Ele respondeu olhando para o céu.

— O rio? — Confusa, Kaolin olhou para os amigos.

Tokku e Endi se encararam aflitos, pensando se aquilo era algum tipo de armação planejada pelo espírito. Mas não seria possível ele saber que aquele já era o destino para o qual estavam indo.

Um vento forte balançou os galhos das árvores, fazendo várias folhas caírem sobre eles.

— Os humanos vivem uma mentira. — Geoffrensis amassava uma das folhas com sua mão. — Os espíritos não acabaram com sua raça. Vocês mesmos se destruíram.

— Como assim? — Kaolin questionou.

— Estão há anos presos em sua gaiola, na ilusão de estarem em segurança. — Debochou Geoffrensis. — Sem suspeitar que o verdadeiro inimigo dorme ao seu lado.

— Do que você está falando? — Tokku gritou confuso.

— Não é a mim que vocês procuram. — Geoffrensis se levantou. — Preciso voltar ao rio, o Sol já vai nascer.

Virando as costas para o grupo, começou a caminhar lentamente para dentro da floresta. Olhando para trás, acenou com a cabeça se despedindo, sorrindo para Kaolin. "Espere!" ela gritou. Mas já era tarde demais. Com os primeiros raios do Sol, Geoffrensis desapareceu diante de seus olhos. E imediatamente, Amana despertou.

— Você está bem? — Kaolin correu para perto da irmã.

Amana agia como se estivesse acabando de acordar após uma boa noite de sono. Bocejava tranquilamente. Lin pulou na cabeça da garota, que sorriu para ele.

— O que aconteceu enquanto você vigiava o acampamento? — Tokku perguntou.

— Como assim? — Confusa, Amana se espreguiçou.

— Você meio que foi raptada por um espírito. — Kaolin disse.

— Como assim? — Amana gritou.

Enquanto Endi e Tokku contavam com detalhes o que acabaram de presenciar, Amana ouvia em silêncio, com os olhos arregalados.

Kaolin, parada ao lado da irmã, parecia tentar se recuperar de toda aquela agitação. A adrenalina do momento havia colocado cor de volta na jovem, mas agora, passado o susto, ela voltava a ter uma expressão de fadiga.

— Realmente não lembro de nada! — Amana disse confusa. — A última coisa que me lembro é de estar olhando algumas folhas e ter adormecido.

— Tudo isso é muito estranho. — Endi suspirou.

— Pelo menos você parece bem. Ele não deve ter feito nada de ruim com você. — Kaolin recuperava seu machado, tirando-o com dificuldade da árvore.

— Não sinto nada de errado. — Amana ficou de pé. — Ah! Mas então temos uma prioridade maior agora. Precisamos encontrar essa tal de Syreni.

Todos pareciam concordar. Antes de Geoffrensis aparecer, ninguém tinha ideias ou sugestões de como resolver a situação de Kaolin. Finalmente tinham uma pista que podiam seguir. Agora haviam esperanças mais concretas de uma cura.

— Mas vocês precisam admitir que é bem estranho, e um tanto suspeito, que quem pode ajudar Kaolin está no mesmo local para onde já estávamos indo. — Tokku comentou.

— Coincidências acontecem. — Kaolin falou otimista. — Melhor para nós, não é mesmo?

— Bem... — Endi foi argumentar, mas achou melhor ficar em silêncio.

— Você está com o mapa? — Amana perguntou para Tokku.

— Sim. — Ele confirmou. — Estamos indo na direção certa.

Então reorganizaram seus pertences com calma, dividindo o peso das mochilas igualmente e continuaram a viagem. Apesar do susto com o sumiço de Amana, o grupo estava mais animado. Caminhavam aliviados pela mata, apreciando a natureza ao seu redor e conversando sobre o estranho espírito que encontraram.

No meio da tarde, Kaolin avistou algo redondo no chão. Espremendo os olhos, tentando decifrar o que seria aquilo, ajustou seus óculos no rosto com a mão.

— Ah! — A garota exclamou.

Correndo, Kaolin foi em direção a grande bola verde.

— O que foi? — Endi se encolheu, agachando-se com medo.

Tokku desembainhou sua espada, se colocando em posição de ataque.

— É uma melancia! — Amana apontou na direção da irmã.

Sorrindo, Kaolin rolava a fruta com sua mão esquerda para perto do grupo. Quando chegou próxima a Tokku, ele golpeou a melancia com sua espada, a repartindo no meio. Cortando mais algumas vezes, obtiveram vários pedaços. Alegre, Kaoli pegou um deles rapidamente. Lin a imitou. Tokku e Amana se sentaram, fazendo companhia a jovem e ao macaco, e começaram a comer juntos.

— Por que todo esse alvoroço? — Endi olhou estranho.

— É bem raro conseguirem levar melancias para dentro da Cidadela. — Amana explicou.

— E quando conseguem, não são todos que têm acesso. — Tokku complementou. — Em minhas missões, só encontrei essa fruta duas vezes.

— Para nossa sorte, o bom Capitão sempre levou um pouco para nós. — Kaolin deu um sorriso gigantesco.

Rindo do rosto lambuzado da jovem, Endi se sentou com eles. Achava incrível como uma simples fruta, algo que era muito comum para ele, podia ser um motivo de tanta felicidade para os outros.

Quando terminaram de comer, chegaram a procurar mais melancias ao redor. Infelizmente aquela parecia ser a única na região. Apesar de satisfeita, Kaolin não conseguia negar a vontade de comer mais daquele fantástico fruto. Respirando fundo, continuou sua jornada com os amigos.

CURIOSIDADES


Informação!

Todas as fotografias de paisagens brasileiras usadas nas capas dos capítulos são do fotografo William. Muito obrigada por me permitir usar suas fotos em meu livro. Sigam ele no Twitter e no Instagram: @gunthars_



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